segunda-feira, 17 de março de 2008

O primeiro poeta...

Existem coisas boas na vida. Os poetas são as coisas boas da vida.
Um dia eu me enlouquecí por um. Seu nome, me perdoem os outros poetas, Vinicius de Moraes.
Ninguém nunca o amou como eu amei.
Eu estava de noite em casa. Aquelas noites em que se quer comer o mundo mas não se tem boca pra tudo isso, então se fica em casa na cama, com indigestão. Peguei uma fita qualquer de música, daquelas que estavam lá em casa há anos e resolví ouvir. era ele... meu amado. Que a partir daquele dia sequestrou todos os outros poetas da minha estante. E a partir daquele dia... também não precisei me apaixonar... porque quando leio Vinicius satisfaço os meus desejos.
Tudo começou naquela noite. Ele se aproximou com auela musica bonita e gostosa de ouvir. Depois se aproximou mais e me disse uma coisa bem de pertinho. Na orelha. Sabe aquele bafo quente que te diz coisas? Você fica contente... mas depois o bafo tira tudo da tua mente. Ele disse:
'Pra fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza, se não não se faz um samba não. Se não, é como amar um mulher só linda. E daí? Uma mulher tem que ter qualquer coisa de beleza. Qualquer coisa de triste. Qualquer coisa que chora. Qualquer coisa que sente saudade. Um molejo de amor machucado, uma beleza que vem da tristeza de se saber mulher; feita apenas para amar, para sofrer pelo seu amor, e ser só perdão.'
Depois desse maravilhoso sessurro, apaguei de prazer. Coisa boa de ser mulher, objeto de tanta idolatria. Coisa boa ter tristeza, sentimento de tanta sabedoria. Depois dos divinos sussurros ele ficou me olhando na cama. Aquele corpo de menina que só sabe fazer rimas bobas. Ele me olhava... olhava, sorria e dizia... Dizia frases soltas... mas berradas. Frases soltas e berradas. Ele berrava frases com todo o se fôlego. Enchia o pulmão e demorava três minutos dizendo cada frase. Era um número de circo, um verdadeiro número de circo.
Eu alucinada deixava... deixava... 'que coisa mais linda, que número de circo... meu Deus... meu Deus...'
Depois ele ficou sério. Parou de gritar e me disse muitas coisas. Sérias. Eu ouvia e não fazia mais nada a não ser esperar torcendo o final da frase. Esperar o final da frase para ter mais uma vez aquela compreensão maravilhosa da vida. Séria eu ouvia... muito séria.
E ele ficou mais sério ainda. Entçao notei que ele queria de mim mais concentração. Muito mais concentração e seriedade do que eu lhe podia dar. Mas enfim, me atirei nas minhas secretas capacidades para satisfazer meus desejos.
eu estava séria como uma coisa que não posso descrever aqui. E quando fiquei mais séria ainda do que isso, ele me disse:
'E se mais do que minha namorada, você qer ser minha amada, mas amada pra valer. Aquela amada pelo amor predestinada, sem a qual a vida é nada, sem a qual se quer morrer. Você tem que vir comigo no meu caminho e talvez o meu caminho seja triste pra você.'
Eu parei tudo, parei a minha vida inteira. Precisava pensar. Pensar em que caminho escolher para esse amor. Parei a vida. Parei tudo, ficou tudo paradinho e no entanto eu não conseguia decidir o caminho... não conseguia. E ele... continuava a falar aquelas coisas maravilhosas. Eu querendo pensar e ele cantando... cantando...
'Você, sei lá... você é linda porque é.
Quando eu me pergunto se você existe mesmo, amor, entro logo em órbita no espaço de mim mesmo, amor, é bom morar no azul do amor, você é linda porque é.'
Cansada e angustiada, sem conseguir decidir nada. eu compreendi... que não era preciso parar nada pra decidir. Porque foi a decisão. foi ali, durante o discurso dele que achei a resposta.
Sim, eu quero o caminho triste.
Aquela noite foi divina. Depois das palavras nós ficamos em silêncio. E o que aconteceu no silêncio, desculpe mas não posso descrever aqui.
Costumo dizer ultimamente que se o Vinícius fosse vivo ele me amaria, que eu sou a mulher da sua vida, que seria até fiel.




Mas isso é só uma piada para terminar
este poemada
Sobre os significados que ele tem me ensinado,
que são muitos, não caberiam aqui.
Minha poesia se sente passarinho
no ninho de Moraes.
Passarinho que para para descrever nossos encontros
talvez seja capaz.
Nos nossos encontros tenho me sentido feliz até demais.
e minha poesia, estará sempre na cama
Com Vinícius de Moraes.

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