quinta-feira, 23 de outubro de 2008

O céu está parado, não conta nenhum segredo
A estrada está parada, não leva a nenhum lugar
A areia do tempo escorre entre meus dedos
Ai que medo de amar!

O sol põe em relevo todas as coisas que não pensam
Entre elas e eu, que imenso abismo secular...

As pessoas passam, não ouvem os gritos do meu silêncio
Ai que medo de amar!

Uma mulher me olha, em seu olhar há tanto enlevo
Tanta promessa de amor, tanto carinho pra dar
Eu me ponho a soluçar por dentro, meu rosto está seco
Ai que medo de amar!

Dão-me uma rosa, aspiro fundo em seu recesso
E parto a cantar canções, sou um poético jogral

Mas viver me dói tanto! e eu hesito, estremeço...
Ai que medo de amar!

E assim me encontro: entro em crepúsculo, entardeço
Sou como a última sobra se estendendo sobre o mar

Ah, amor, meu tormento!... como por ti padeço...
Ai que medo de amar!


Vinicius de Moraes, para Maria Lucia Proença.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008


Não sou filha de ninguém
Não tenho pai, nem mãe,
nenhum vínculo.
Sou uma sombra,
Um reflexo no espelho
Uma lembrança de alguém que não existe mais.

Quando as coisas acabam,
pra onde elas vão?
O nada é um buraco negro
pra onde tudo está sendo sugado.
Existe um buraco negro no meu coração
Sugo as coisas até acabarem
Bebo a seiva até a última gota
Aí elas se alojam no meu peito
e eu continuo não existindo
Não sei quando foi que morri
Não sei quando foi que esqueci de viver
Esqueci o silêncio eterno que ficou....

Não existe espelho
Não existe imagem
Não existe nada
Só existe o nada
pra onde estamos sendo jogados
de um lado pro outro
nessa viagem desconfortável.

Estou no céu porque mergulhei na minha fantasia.
Estou por entre nuvens porque quero estar.
Nuvens azuis, cor-de-rosa
Não tenho sentimento
Sou nuvem
Tudo passa por mim
o vento, o sol, a chuva

Estou sozinha
Não tenho com quem brincar.
A peça acabou
Baixou o pano
E eu não desempenho meu papel.
Aplausos congelados.

Não sei como as pessoas conseguem continuar existindo
como robôs como coisa qualquer
Não vou molhar de mar
Não vou cheirar o sal
Nem vou olhar o céu
Nem sol, nem calor
Nem pássaros, nem voar
Não vou viver de ar
Não vou respirar
Acabou o ar
Não vou lembrar
Não vou esquecer
Não posso ficar
Não posso esconder

Os outros não existem
Inventei uma vida
Inventei um amor
Inventei uma pessoa
Inventei a mim mesma

Mas cansei de inventar
Cansei de pensar
Cansei de existir
Cansei de tentar entender
Cansei de pagar pra sorrir
Cansei de chorar pra sentir
Cansei de acabar
Cansei de procurar
Cansei de achar e perder
Cansei de tentar me encontrar

Um canto escuro onde eu possa existir,
me queixar, gritar, xingar o mundo
E continuar só,
Existindo eu
Existindo a dor
E jogando todo o resto no lixo
Jogando pra fora o cor-de-rosa
Me entregando pro céu,
alcançando uma estrela infinita,
sendo eterna como um momento vão,
um momento ínfimo
que se repente a todo momento
fazendo uma rota no espaço
fazendo um desenho no céu
um rabisco no papel.
Ser feliz com água e vento
Ser feliz chorando todo dia
Ser feliz arrancando um pedaço todo o dia
Ser feliz com o sentimento de saudade
Lembrança doce tormenta

Tenho nojo disso tudo
Mas também estou fugindo,
me escondendo de Deus,
me escondendo de você,
até que eu vire nada novamente
até que eu vire estátua permanente
até que eu vire um algo jogado,
entulhado ao lado de outros nadas
outros lixos, outros fins.

domingo, 15 de junho de 2008

Paciência.

...em um estado como esse, ficar sem dormir não é recomendável.
mas deitar-se em sono também não é, fico com a ilusão de que quando acordasse tudo estaria resolvido. mas não estará. Por isso continuo com a vigília.


e essa conversa que de estou com cara-de-morta? por acaso queres me advertir?


sofro de bloqueio. Vou ali me suicidar um pouco e já volto.
"It's all over now, baby blue"


segunda-feira, 19 de maio de 2008

Medo que dá medo do medo que dá.

Se comunicavam como quase num sussurro, e cada palavra e olhares bastavam para eles.
Ninguém poderia entender o que ele dizia a ela, porque além dessas palavras bonitas que a ensinava, saíam coisas do coração, que só ela conseguia compreender, talvez pela semelhança entre ambos... (ou não)
Um aperto bem forte a surpreendia vez em quando. Era quando ele tocava em sua ferida mais escondida. Mas isso não a afetava tanto, ao contrário, lhe agradava aquela entorpecência. Não que fosse sádica, mas aquela dorzinha a mostrava que estava viva, e não era à toa.
Queria aprender, bater a cabeça, se levantar e ter alguém que lhe desse a mão. O problema (e era aí que ela sofria de verdade), era que não tinha a certeza de até quando o teria por perto sussurrando, cumplice, e a olhando daquele jeito que só ele sabia...


Tienen miedo del amor y no saber amar
Tienen miedo de la sombra y miedo de la luz
Tienen miedo de pedir y miedo de callar
Miedo que da miedo del miedo que da
Tienen miedo de subir y miedo de bajar
Tienen miedo de la noche y miedo del azul
Tienen miedo de escupir y miedo de aguantar
Miedo que da miedo del miedo que da
El miedo es una sombra que el temor no esquiva
El miedo es una trampa que atrapó al amor
El miedo es la palanca que apagó la vida
El miedo es una grieta que agrandó el dolor

Tenho medo de gente e de solidão
Tenho medo da vida e medo de morrer
Tenho medo de ficar e medo de escapulir
Medo que dá medo do medo que dá
Tenho medo de acender e medo de apagar
Tenho medo de esperar e medo de partir
Tenho medo de correr e medo de cair
Medo que dá medo do medo que dá
O medo é uma linha que separa o mundo
O medo é uma casa aonde ninguém vai
O medo é como um laço que se aperta em nós
O medo é uma força que não me deixa andar

Tienen miedo de reir y miedo de llorar
Tienen miedo de encontrarse y miedo de no ser
Tienen miedo de decir y miedo de escuchar
Miedo que da miedo del miedo que da

Tenho medo de parar e medo de avançar
Tenho medo de amarrar e medo de quebrar
Tenho medo de exigir e medo de deixar
Medo que dá medo do medo que dá
O medo é uma sombra que o temor não desvia
O medo é uma armadilha que pegou o amor
O medo é uma chave que apagou a vida
O medo é uma brecha que fez crescer a dor

El miedo es una raya que separa el mundo
El miedo es una casa donde nadie va
El miedo es como un lazo que se apierta en nudo
El miedo es una fuerza que me impide andar

Medo de olhar no fundo
Medo de dobrar a esquina
Medo de ficar no escuro
De passar em branco, de cruzar a linha
Medo de se achar sozinho
De perder a rédea, a pose e o prumo
Medo de pedir arrego, medo de vagar sem rumo
Medo estampado na cara ou escondido no porão
Medo circulando nas veias ou em rota de colisão
Medo é de deus ou do demo? É ordem ou é confusão?
O medo é medonho
O medo domina
O medo é a medida da indecisão
Medo de fechar a cara, medo de encarar
Medo de calar a boca, medo de escutar
Medo de passar a perna, medo de cair
Medo de fazer de conta, medo de iludir
Medo de se arrepender
Medo de deixar por fazer
Medo de se amargurar pelo que não se fez
Medo de perder a vez
Medo de fugir da raia na hora H
Medo de morrer na praia depois de beber o mar
Medo que dá medo do medo que dá

sábado, 17 de maio de 2008


Olho para o nada, buscando inspiração. Alguma inspiração diferente das que já tive ou tenho tido. Fixo o olhar em alguma coisa, viajo com o pensamento. Procurando por uma piada, caçando uma imagem nova, vasculhando por uma memória ou lembrança que não me faça lembrar ele, pensar nele... Tudo que vejo, penso, falo, ouço ou sinto é ele. Um ser onipresente.. Onipresente no meu ser. Já senti tanta coisa que nem sou capaz de me definir, na essência sei que sou o mesmo, mas já troquei tanto de camadas que nem sei qual vestir, todas parecem ruins. Tenho medo de encarar essa situação do pior jeito, arriscando sair sem camada alguma, em carne VIVA, só pra sentir de novo como é o gosto de viver...

A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação...
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto, onde estarão?