quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008


Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.

Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoas tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.

Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.


E o coração dela doía, porque ela já achara o seu amigo, o SEU amigo.




O texto é de Vinicius, meu poeta, e é pro Ohi, meu amigo.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Aí eu tomo um banho bem quente, pra te expulsar da minha pele.
E canto bem alto, pra te expulsar da minha alma.
E escovo a língua bem forte, pra separar meu gosto do teu. E quase vomito, pra parir você do meu fígado. E tento abrir a geladeira sem me perguntar o que eu poderia comprar pra te agradar. E tento me vestir sem carregar a esperança de esbarrar com você por aí. E tento ouvir uma música, sem me lembrar que você gosta de se esfregar de lado em mim.
E tento colocar uma simples calcinha, e não uma bala perdida pronta para acertar você.
E tento ser só eu, simplesmente eu, novamente; sem esse morador pentelho que resolveu se acampar em mim.
E nada disso adianta.
E o esforço para não fazer nada disso, já é fazer tudo isso.
Pra ti, com açúcar e afeto.
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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Caio F.


Não choro mais. Na verdade, nem sequer entendo porque digo 'mais', se não estou certo se alguma vez chorei. Acho que sim, um dia. Quando havia dor. Agora só resta uma coisa seca. Dentro, fora.



Ê chuva, ê Caio: esses Morangos estão me deixando louca.